Affonso Romano de Sant’Anna escreveu no suplemento “Sabático”, do
Estado de S.Paulo (“
O leitor, onde está o leitor?”,
15/10), que “a leitura é o verdadeiro pré-sal”. Advertência preciosa,
mas vai se chocar com um contexto adverso. Há 138 anos, Machado de Assis
(
Instinto de Nacionalidade) constatava que o Brasil era “um
país que apenas entra na primeira mocidade, e esta ainda não nutrida de
sólidos estudos”. Talvez por isso ele tenha feito Brás Cubas dirigir “Ao
leitor”, no prólogo de suas
Memórias Póstumas, o prognóstico:
“O que não admira, nem provavelmente consternará, é se este outro livro
não tiver os cem leitores de Stendhal, nem cinquenta, nem vinte e,
quando muito, dez.”
A situação dos brasileiros melhorou? Muito. O problema é o ponto muito recuado de onde partiram os avanços “civilizatórios”.
Hoje, discute-se se há no país livros demais, editoras demais. A Record
tem um galpão com 2 milhões de exemplares recolhidos de pontos de
venda. Affonso Romano de Sant’Anna põe a questão de cabeça para cima: o
que há é leitores de menos. A migração da marquetologia para o ramo
editorial sofre e sofrerá sempre com a disjuntiva educacional/cultural:
qual será no Brasil a correlação entre consumo de produtos como
lava-roupas, ou televisores de plasma, ou automóveis usados, de um lado,
e livros, de outro?
O “crescimento do consumo” pode causar equívocos. Para o indivíduo
“típico” dos grandes grupos humanos, é mais fácil acumular poder de
compra do que conhecimento. Sem algum conhecimento não é possível saber o
que se pode conhecer nos livros. Mas saber que há uma pechincha nas
Casas Bahia, ou um feirão de automóveis no fim de semana, não requer
esforço.
Não é fácil ser ignorante
O saudoso matemático e estatístico Wilton Bussab, professor da FGV-SP, deixou gravado
um depoimento com esta conclusão magistral: para ser ignorante, uma pessoa precisa estudar muito; senão, é só inocente.
Se as tendências de consumo, mesmo quando medidas com alguma seriedade,
não permitem ter certeza do tamanho da produção “ideal” para
determinado segmento ou nicho, menos ainda no caso de produtos cuja
utilidade e desejabilidade pertencem ao terreno do completo
subjetivismo.
Acertar o tamanho de uma edição de livros não é, portanto, tarefa
fácil. Na imensa maioria dos casos sobram livros nas livrarias, por
sinal tradicionalmente poucas no país. Essa premissa não se aplica aos
livros didáticos que têm mercado mais ou menos delimitado, ou mesmo
cativo (comprados por governos).
O livro sem papel
Mas tudo isso vai ficar para trás. As edições em papel serão feitas sob
encomenda (essa modalidade, que existe há uma boa dezena de anos, ainda
não se disseminou). Não haverá mais custos com papel, impressão,
distribuição (hoje, nos canais convencionais, mais cara do que a
produção do livro ou de revista de pequena tiragem), nem com a
manutenção de depósitos próprios ou alugados.
Proporções notáveis do patrimônio natural poderão, em princípio, ser
preservadas. Quer dizer, se os fabricantes de papel não criarem novos
mercados para seus produtos.
O governo não precisou subsidiar a compra de televisores pela população
mais pobre. Bastou controlar a inflação. Depois do Plano Real, a posse
de aparelhos de TV se universalizou no país.
Põe a banda que o povo se vira
O mesmo acontecerá com os aparelhos digitais de leitura (“leitores”
somos nós, não os aparelhos), já acontece com notebooks e tabuletas. O
povo se vira para comprar e isso retira do processo de distribuição
custos monumentais. Por isso a banda larga é tão importante. É um
investimento muito grande, não funciona na base do “mercado
formiguinha”.
É significativo que uma empresa como a Amazon, que deu um banho de
logística para vender livros e outros produtos materializados, tenha
criado também um aparelho digital de leitura tão sensacional como o
Kindle.
Ainda se trata dos primórdios dessa modalidade, o livro dito
eletrônico, mas é o suficiente para indicar uma tendência irresistível.
Aproveito para fazer um comercial gratuito: Luciano Martins Costa,
jornalista de longo curso e escritor, titular do programa de rádio deste
Observatório da Imprensa, criou uma editora digital, a
Biblos. Já acumula uma experiência interessante.
Daqui a alguns anos, os atuais aparelhos de leitura parecerão
canhestros. É o que acontece em todas as revoluções tecnológicas:
prometem muito mais do que conseguem entregar no início e acabam
resultando em algo muito além do sonhado (lei de Arthur Clarke). Mas dá
para imaginar a emoção das pessoas que, por exemplo, ficaram pela
primeira vez diante de uma telinha de televisão, mesmo tão pobrezinha,
desenxabida?
Livro vs. multitarefa
Agora, vamos ao principal. Por que ler livros, em papel ou em aparelho
de leitura, e não em computador ou tabuleta? Porque livro é para ser
lido exclusivamente. Em silêncio ou em voz alta (para cegos ou, como
fazia Antônio Houaiss na juventude, em Copacabana, para operários
estrangeiros ou analfabetos).
Não é para ser lido ouvindo música (recomendação de Chico Buarque, que
também evita o inverso: ouvir música fazendo outra coisa ao mesmo
tempo), conferindo correio eletrônico, navegando em sites de notícias,
com dispositivo de mensagem instantânea piscando ou Skype aberto etc.
etc.
É a grande vantagem do livro (pode ser livro de imagens, não importa). A
pessoa se concentra. O pensamento pode viajar? Pode. Deve. Mas o ponto
de partida é uma criação intelectual orgânica, com ritmo, sintaxe,
estética, estilo. Jornal e revista também são assim.
Livro não é para ser lido no computador, em primeiro lugar porque ler
alguma coisa muito extensa no computador é uma experiência fisicamente
medonha. A tabuleta resolve esse problema. Mas não o da concentração.
Pode ser tão dispersiva quanto o computador. E, até o momento, não
oferece a confortável opção da tela sem luz própria, como o Kindle.
Os seres humanos não são obrigados a pagar tributo a uma
multifuncionalidade geralmente sem sentido. O cérebro é um só, ainda que
os sentidos sejam vários. É preciso entender que a indústria cristaliza
padrões a cada etapa da evolução tecnológica, mas não necessariamente
esses padrões são os únicos possíveis, ou os melhores.
A perfeição é uma meta
O computador pessoal é uma maravilha, pelo universo de possibilidades
de trabalho, estudo, diversão, principalmente comunicação que abriu
quando passou a ser ligado em rede, mas está muito longe de ser um
produto “perfeito” (algo que não existe e não existirá nunca). Tem muita
coisa burra. Por dificuldade em alcançar novo patamar, por desinteresse
de quem está vendendo muito bem.
No Ocidente se come com garfo e faca (nem todo mundo...). No Oriente,
com pauzinhos. Alguém pode dizer que um método seja melhor do que o
outro? A escrita “certa” é da esquerda para a direita ou vice-versa? É
na horizontal ou na vertical?
Os veículos automotores, que revolucionaram os transportes e as
comunicações, provocaram 100 milhões de mortes em seu primeiro século de
utilização. A lata de alimentos foi inventada no fim do século 18, mas o
abridor portátil de latas, uma simples lâmina com uma alavanca, só na
segunda metade do século 19. Latas eram abertas com facas, machados, no
faroeste até com tiros.
Assim caminha a inteligência coletiva da humanidade. E o Eclesiastes,
sabiamente citado por Machado de Assis como o melhor dos repositórios de
sabedoria, garante que “não há nada de novo sob o sol”.