Tema V - As partes da redação e a argumentação


I - Introdução e Conclusão: a função do primeiro e do último parágrafo

Bem, já falamos que cada parte da redação cumpre uma função específica, e é bom que o aluno tenha certeza de estar construindo seu texto com base nessa necessidade. Há três partes na estrutura do texto dissertativo que devem ser construídas tendo em vista uma boa redação: a introdução e a conclusão, que devem ocupar, respectivamente, o primeiro e o último parágrafo, e o desenvolvimento, que geralmente são feitos em 2 ou 3 parágrafos no meio da redação. A introdução tem como propósito fundamental apresentar o ponto de vista a ser defendido e explicado ao longo do desenvolvimento: este ponto de vista, que chamamos de tese, é o que dá ao texto a linha de raciocínio que o organiza e o torna coerente. Sem uma tese claramente pensada e apresentada, não é possível garantir que o texto alcançará o resultado esperado.
Se a introdução, portanto, tem como função apresentar a tese a ser defendida, a conclusão deve reafirmar e confirmar essa tese, por meio de uma retomada mais segura e convencida de que o seu ponto de vista foi de fato bem defendido e pode assim merecer uma conclusão adequada. O propósito do último parágrafo é, pois, mostrar ao leitor que você está seguro em dizer o que disse. Não é difícil, no entanto, perceber que para obter esta segurança, você precisa ter antes não só mostrado qual era a sua tese, mas acima de tudo ter conseguido defendê-la adequadamente - e é aí que entra a questão da argumentação, e sua dificuldade. É o que iremos trabalhar agora.

II - Estudando a argumentação

São as disciplinas de Lógica e Retórica, ligadas à Filosofia, que nos oferecem a possibilidade de avaliar e construir uma boa argumentação. Vamos seguir aqui um passo a passo importante na compreensão de uma argumentação, em como podemos e devemos apresentar nossas ideias de modo a mostrar ao leitor que temos razão em dizer o que estamos dizendo. E a primeira coisa a ser percebida é que há uma diferença entre os tipo de frases possíveis a alguém formular, dentre as quais há aquelas que podem ser chamadas de sentenças ou proposições. Visto que só estas podemos dizer serem ou não verdadeiras ou razoáveis, precisamos compreender então o que é uma sentença, para seguirmos depois na obtenção de um tópico frasal adequado ao nosso argumento.

(a) Sentenças e proposições

Uma sentença ou proposição é uma frase declarativa que pode vir na afirmativa ou na negativa. Uma frase declarativa é aquela que se diferencia de uma pergunta, uma ordem, um pedido, uma exclamação, porque declaram algo sobre o mundo. Por exemplo, se dizemos "Que horas são?" estamos interessados em um fato que não sabemos (ou seja, a hora certa no momento), e por isso não podemos declarar saber algo. Diferentemente, podemos dizer "São quatro horas" ou "Não sei que horas são": neste caso, estamos declarando algo sobre o mundo (ou seja, estamos dizendo que nesse momento são quatro horas, ou então que não podemos saber que horas são). A mesma diferença ocorre quando se diz "Venha cá, fulano!", que não declara nada sobre nada, mas emite apenas um chamado, uma ordem. Isso é importante porque são as frases declarativas, ou seja, as sentenças, que compõem um argumento, são elas que tornam o argumento razoável e consistente. A princípio, não se deveria argumentar com frases exclamativas ou com perguntas, já que deste tipo de frase não podemos extrair uma verdade ou falsidade (não faz sentido dizer que "Venha cá!" é verdadeira ou razoável; apenas frases declarativas como "Este é meu irmão" podem ser avaliadas: em outras palavras, só nestas frases faz sentido perguntar: o que você disse é verdade ou não?).

(b) A construção dos parágrafos e o tópico frasal

Passemos agora a tentar entender o que é um tópico frasal. É importante que se pense, em primeiro lugar, que um parágrafo é uma unidade de texto que desenvolve uma ideia central, articulada ao todo da redação, e que por conta disso, é importante que se pense em cada parágrafo como uma unidade própria em seu sentido, que deve ter uma relação inevitável com as outras unidades, ou seja, os outros parágrafos.
Vejamos o seguinte exemplo de um parágrafo argumentativo feito para o tema do ENEM de 2006: O poder de transformação da leitura.

"De um ponto de vista pragmático, mais do que informar, a leitura desenvolve a inteligência crítica. Em um mundo globalizado, em que a Revolução Tecnológica torna qualquer informação obsoleta a cada minuto, os mais 'adaptados' não serão os 'teleinformados', mas aqueles capazes de reaprender sempre, que são os acostumados a ler. Por essa razão, subsídios governamentais ao barateamento dos livros e à construção de bibliotecas públicas são imprescindíveis."

Não é difícil perceber que este parágrafo possui uma ideia central que dá unidade de sentido a ele: ou seja, é possível perceber que todas as frases estão ligadas entre si na tentativa de ressaltar um ponto importante. Se quiséssemos, pois, definir qual a ideia central que este parágrafo veicula, onde a encontraríamos? 
Vejamos. O parágrafo possui três frases completas, separadas entre si por pontos. Sabemos que todo parágrafo contém uma ideia principal que ele pretende explicitar. Para ser possível identificar qual a frase que reúne em si a ideia central do parágrafo, precisamos compreender qual delas é mais importante para a compreensão das demais, ou ainda, qual a relação entre as ideias que elas veiculam. Veja a 1ª e a 2ª frase: qual a relação entre as ideias que elas veiculam? É a 2ª que explica, aprofunda e ilustra a 1ª ou é o contrário? Fica claro que cabe à 2ª explicitar e aprofundar a ideia que a 1ª anuncia e declara. E se olharmos a 3ª frase, perceberemos que ela propõe uma solução ao problema apresentado pelas outras duas. Nesse caso, é a 1ª frase que dá unidade de sentido ao parágrafo, porque nela está a ideia central que ele pretende explicar. Logo, se esta é a sentença que contém a ideia central do parágrafo, é a ela que damos o nome de tópico frasal.

O tópico frasal pode vir também, embora menos comumente, no final do parágrafo, precedido por algum(ns) exemplo(s) que será(ão) em seguida direcionado(s) para a ideia principal. Vejamos o seguinte parágrafo, feito para um tema sobre a existência ou não de racismo no Brasil:

"(1) Há cerca de duas semanas, uma pesquisa universitária revelou o que já se sabia - trabalhadores negros ganham, em média, muito menos que os brancos, em todos os níveis salariais. (2) Esse dado não prova apenas a existência do racismo; revela, também, que nem mesmo a ascensão profissional de um indivíduo significa a superação do preconceito. (3) Isso significa que o discurso da 'democracia racial' brasileira perdeu seu principal argumento. (4) Afinal, se nosso preconceito fosse apenas social, como explicar que executivos negros ganhem menos que brancos?"

Para facilitar, pus antes de cada frase do parágrafo uma numeração, que nos mostra que ele tem quatro frases reunidas em torno de uma ideia central. Contudo, em qual frase estaria essa ideia? Vejamos. Se verificarmos as duas primeiras frases, veremos que (1) é um fato (mostrado pela pesquisa) que (2) procura logo em seguida interpretar. Mas não poderia a ideia central do parágrafo ser qualquer uma dessas duas primeiras frases, já que elas fazem referência a uma determinada opinião que ainda não foi declarada. Ela só o será na frase (3), onde temos uma conclusão sobre o que ficou dito antes: uma conclusão que expressa a opinião que dá sentido ao fato da pesquisa. Por fim, a pergunta em (4) sugere até onde o autor do texto pretende conduzir sua ideia, com base no fato oferecido pela pesquisa.
Podemos perceber que os parágrafos de desenvolvimento podem ser construídos de dois modos: no primeiro caso, temos a apresentação do tópico frasal no inicio do parágrafo, e uma sequência posterior de outras frases que aprofundam, explicam e fundamentam o que a sentença primeira anunciava; no segundo, temos um exemplo, um fato ou uma evidência seguida da sua interpretação (ou seja, uma apresentação da ideia sugerida pelo fato apresentado), e que conduz a explicitação do tópico frasal que dá sentido ao que foi dito antes.
Visto esse ponto importante sobre os parágrafos de desenvolvimento, passemos a tratar mais propriamente da argumentação.

(c) O que é argumentar?

Argumentar é ser capaz de construir uma inter-relação entre algumas sentenças, cujo encadeamento torna possível a inferência de uma conclusão necessária ou provável. Ou seja, é porque as sentenças oferecem razões suficientes para aceitarmos a conclusão que dela inferimos, que podemos dizer estarmos diante de um argumento.

Vamos esclarecer, de início, o que seja uma inferência. Inferir é poder extrair (concluir) informação nova pelo encadeamento racional de outras informações que possuímos. Por exemplo, se sabemos que Dona Maria acabou de fazer 70 anos, podemos extrair (concluir) que ela é idosa, que ela já vivenciou muito mais experiências que uma criança, que ela não tem mais a saúde que já teve na juventude, etc. Todas estas novas informações que extraímos daquela primeira são conclusões lógicas, necessárias, inferidas da primeira apenas pelo raciocínio.
Veja o caso da primeira inferência: se sabemos que Dona Maria tem 70 anos, podemos inferir que ela é uma pessoa idosa porque temos uma outra informação, não explícita, que nos diz em que idade se situa a velhice. O raciocínio que fizemos foi o que se segue.

a) Dona Maria tem 70 anos;
b) Os idosos são aqueles que possuem idade superior a 60 anos;
c) Logo, Dona Maria é uma mulher idosa.

O conectivo 'logo' realiza exatamente a função de mostrar a inferência que fizemos: mostrar que ela é lógica, é necessária e racional. Quer dizer, a conclusão que extraímos, a nova informação, a sentença que anunciamos em c) não poderia ser diferente desta. Quando isto ocorre, dizemos que a inferência é dedutiva.

Vejamos ainda um outro tipo de inferência, agora obtida por um raciocínio diferente.

a) Soube de um caso de racismo em que a vítima foi prejudicada;
b) Alguém me falou sobre um outro caso de racismo em que a vítima foi prejudicada;
c) A televisão noticiou ainda outro caso de racismo em que a vítima foi prejudicada;
d) Logo, todo caso de racismo traz prejuízo à vítima.

É fácil perceber que este tipo de inferência se situa não mais na inter-relação lógica estabelecida entre informações sabidas e outras novas, mas na generalização de fatos que, ao fim de uma quantidade razoável deles, permite alguma conclusão indutiva.

Tanto os raciocínios do primeiro tipo quanto os do segundo possuem suas qualidades e desvantagens, visto que ao homem é possível errar ainda que esteja certo de falar a verdade. A situação de cada um destes tipos, e o modo como podemos construí-los de modo a evitar os erros, são nosso próximo assunto.

(d) Os tipos de raciocínio: dedução

Uma dedução é um encadeamento lógico e necessário que se estabelece entre as informações que temos (e que chamaremos de premissas do argumento) e aquela nova informação que obteremos (chamada de conclusão do argumento). Em outras palavras, a verdade das premissas garante a verdade da conclusão.

Vejamos um exemplo clássico de dedução:

Premissa 1: Todo homem é mortal
Premissa 2: Sócrates é homem
Conclusão: Sócrates é mortal

O raciocínio dedutivo funciona da seguinte forma: quando se deseja afirmar uma opinião (que será sempre a conclusão), deve-se procurar informações conhecidas, ou passíveis de serem conhecidas, por todos (as premissas), para que aquela nova ideia encontre sua fundamentação. Se queremos provar que Sócrates é mortal, devemos partir da informação de que todo homem é mortal: se Sócrates é homem, então ele é mortal.

Vejamos um outro exemplo de argumento dedutivo. Sócrates havia dito, durante a sua condenação, que ele não temia a chegada da morte, e que ninguém a deveria temer, porque a maior ignorância de um homem é supor que sabe o que ele não sabe. Esta sentença (frase declarativa), que Sócrates pretende defender por meio do raciocínio, situa-se como a conclusão (informação nova) de algumas premissas (informações já sabidas) que ele encadeia da seguinte forma:

Premissa 1: Ninguém sabe o que é a morte, se ela é boa ou má para o homem
Premissa 2: Todos temem a morte, como se soubessem algo sobre ela
Conclusão: Logo, temer a morte é supor que se sabe o que não se sabe

Até aqui, deve estar claro que a vantagem deste tipo de raciocínio está na garantia que se pode ter de que a força da nossa nova informação, da sentença que queremos defender, está na verdade das outras informações da qual a deduzimos, mostrando que se as premissas estão certas, então é impossível que a conclusão não o seja. Mas há uma desvantagem aqui: ela está justamente na possibilidade de que alguma de nossas premissas esteja errada, e isto invalida todo o raciocínio. Veja o seguinte exemplo.

Premissa 1: A leitura sempre mostra algo novo
Premissa 2: Li um recado do fulano ontem
Conclusão: Aprendi algo pela leitura.

Naturalmente, o esquema de raciocínio estaria certo, se as informações que ele contém não gerassem ao fim uma conclusão pouco fundamentada. Para quem não percebeu o problema, bastaria perguntar 'por que pela leitura se aprende mais?' para ser possível observar que as premissas não esclarecem com eficiência a conclusão. A pessoa que raciocinou desta forma tentou mostrar, pela premissa 2, um exemplo que ilustrasse a premissa 1. A questão é que nem a 1 nem a 2 se adéquam à noção de aprender: o algo novo que a leitura mostra, o que ele é? No caso do exemplo, não fica claro o que foi dito no recado. E se ele fosse algo como 'volto amanhã'? Faria sentido dizer que por meio desse recado, que mostra algo novo, podemos dizer ter aprendido algo novo? A conclusão não tem aquela força de antes. O aluno precisa então evitar que sua conclusão diga algo diferente das premissas, para não criar um argumento infundado.
Vejamos então como ficaria o raciocínio anterior reformulado.

Premissa 1: A leitura de um livro sempre ensina algo novo

Premissa 2: Li um livro sobre arte

Conclusão: Logo, aprendi pela leitura algo sobre arte
Se quiséssemos utilizar este raciocínio em um parágrafo de redação, perceberíamos que ele estaria muito próximo disto.

Ninguém duvida que a leitura de um livro seja sempre capaz de ensinar algo novo àqueles que se entregam em suas páginas. Um livro de arte, por exemplo, pode mostrar muitas coisas sobre o assunto. Mas o que é mais importante: ele é capaz de mostrar que, por este aprendizado, podemos chegar a outras novidades que antes se desconhecia, desde que o leitor não desista de se entregar a esta atividade transformadora.

(e) Os tipos de raciocínio: indução

Já na indução, podemos ter um problema diferente: a questão aqui é que, como toda generalização, podemos não estar certo quanto a ela. Vejamos o seguinte exemplo.

Premissa 1: O grande vaso transparente me dá uma boa visão do seu conteúdo
Premissa 2: Vejo, deste lado, que as bolas dentro dele são brancas
Premissa 3: Vejo, deste outro lado, que as bolas dentro dele são brancas
Premissa 4: Vejo, ainda de outro lado, que as bolas dentro dele são brancas
Conclusão: Todas as bolas dentro do grande vaso são brancas

Perceba que o raciocínio indutivo é aquele que parte da constatação de alguns fatos para uma ideia mais geral sobre eles (por isso a indução é dita levar dos particulares ao geral, enquanto a dedução seria o contrário), e não é de outro tipo o raciocínio usado pela ciência. No entanto, embora apresente uma dada probabilidade de que a conclusão seja de fato verdadeira (que TODAS as bolas sejam brancas) não é possível dizer que o é com toda a certeza: para isso, seria preciso quebrar o vaso e observar se todas as bolas são brancas mesmo. A probabilidade é o recurso de que dispomos na maior parte das situações do dia a dia, e por isso quase sempre o utilizamos mais que a certeza dedutiva. Diante deste fato, podemos amenizar nossas conclusões, sem tomá-las como se fossem a suma verdade. No caso das bolas no vaso, poderíamos concluir da seguinte forma:

Conclusão: Até onde se pode ver, é provável que todas as bolas dentro do grande vaso sejam brancas

Vejamos mais um exemplo, para concluirmos esta seção.

Premissa 1: Há muitas mulheres no mercado de trabalho
Premissa 2: Pesquisas mostram que grande parte delas têm salários mais baixos que os homens
Conclusão: O machismo traz prejuízos econômicos às mulheres

Um parágrafo construído a partir desta indução poderia resultar assim:

Sabemos o quanto o machismo ainda traz de prejuízos às mulheres, e um exemplo destes é o econômico. Embora existam muitas mulheres no mercado de trabalho, algumas pesquisas recentes têm mostrado que os salários femininos são, em grande parte, mais baixos que os masculinos, pela simples diferença de gênero. Este é apenas mais um de tantos absurdos ligados ao preconceito.

Alguém poderia então perguntar: como utilizar estes tipos de raciocínio na hora de construir a redação? O papel da argumentação é defender uma determinada opinião, e o que trabalhamos aqui foram os modos de que dispomos para esta defesa. Cabe ao aluno preceber, acima de tudo, que não há como abrir mão da inferência na hora de escrever um texto dissertativo, e que ele precisará adequar o que vai dizer ao modo mais interessante de dizê-lo. Mais importante que escolher entre indução ou dedução, o aluno deve sentir que suas frases precisam de uma coerência capaz de levar seu leitor a entender suas ideias, e no fim, a verificar que elas foram bem defendidas. Sem um raciocínio adequado, as frases e os parágrafos acabarão confusos e muito pouco produtivos para o fim esperado.

Boa saúde e boa sorte!

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