Tema II - Leitura e Interpretação


Alguém já disse, muito sagazmente, que ler é receber comunicação, e fica clara a importância da leitura antes de qualquer outra atividade do aluno, visto que, sem ela, ele não poderá obter informações sobre nem mesmo disciplinas que aparentemente não dizem respeito às Letras, como as Exatas, por exemplo. Nesse sentido, precisamos de um certo número de procedimentos que nos permitam interpretar ou compreender o que representam os símbolos empregados na comunicação textual. Já dissemos que a compreensão do Português e de suas regras é um primeiro ponto fundamental, mas não suficiente. Falamos ainda que você precisa entrar em contato com os textos, ter com eles familiaridade, e as diferenças entre os textos exige uma familiaridade com diferentes textos. Mais ainda: alcança-se uma boa leitura quando se está em sintonia e familiarizado com textos mais difíceis. Neste sentido, há uma hierarquia de leitura, tal como falamos quando indicamos a passagem da leitura narrativa à dissertativa, e quem lê textos mais formais obtém com o tempo uma capacidade maior de interpretação.
Podemos, a partir de agora, focar nossos esforços com os textos que nos cabem aqui, ou seja, com a redação. Sugeri um link no tema anterior em que estão disponíveis um número significativo de redações feitas para o vestibular da Fuvest, um dos mais difíceis do Brasil, e por esse motivo recomendo fortemente, aos que já tem uma boa familiaridade com textos, que iniciem o quanto antes a leitura de muitas dessas redações, para vocês se acostumarem com esse tipo de texto. Vamos ver, abaixo, algumas dicas para ler bem e saber interpretar um texto desse tipo.

As Etapas da boa Leitura

Os pontos que vamos trazer aqui são preciosos para você conseguir ter familiaridade com os textos e realizar uma leitura mais proveitosa. Se quiséssemos resumir em algumas palavras o que significa um texto ou uma obra escrita, poderíamos dizer que todo texto (palavra essa que possui a mesma raiz latina de "tecido") bem feito deve trazer unidade, coerência e clareza: unidade porque o todo da escrita visa a um propósito, que é mostrar o parecer do autor sobre um determinado assunto ou tema; coerência porque as partes que compõem o texto devem estar bem articuladas entre si, como um organismo; clareza porque essa estrutura textual, antes de ser encoberta ou estar oculta, deve ser mostrada claramente ou por meio da sua própria organização, ou pela escolha das palavras adequadas ao que pretende expressar. Ter em mente a importância desses três aspectos é imprescindível tanto para a escrita de redações quanto para a leitura de outros textos, como veremos agora.

Toda leitura precisa ser feita em três partes:
1. A primeira etapa de uma boa leitura é entender o todo: a obra ou o texto em sua totalidade. Para isso, precisamos obter algumas informações como: (a) o tipo de texto; (b) o assunto de que trata o autor; (c) o que e como ele fala sobre o assunto; (d) quantas e quais partes o autor divide o texto para poder tratar do assunto. Feito esse primeiro contato, podemos seguir para o segundo passo.

2. A segunda etapa é entender as partes: depois de haver identificado, na etapa anterior, que partes compõem o texto, precisamos agora analisar cada uma de suas partes, procurando saber: (a) quais são as palavras mais importantes; (b) quais são as frases ou sentenças mais importantes; (c) identificar os argumentos de cada parte a partir das palavras e sentenças mais importantes; (d) compreender de que modo se articulam os argumentos em relação ao todo proposto.

Falaremos da última etapa, a da crítica, no tema IV, porque ela depende da realização dessas duas. É possível perceber, pelo que descrevemos, de que maneira as duas etapas estão de acordo, e não se pode dizer ter lido bem um livro ou um texto qualquer se não o entendemos a partir dessas duas perspectivas, a do todo e a das partes.
Mas como se realiza esta leitura na prática? Muitos leem dessa forma meio que inconscientemente, sem seguir ao certo cada etapa, mas alcançando um bom resultado no final. É importante, no entanto, ter consciência desses passos porque muitos dos bons resultados que obtemos entendendo um texto se deve a familiaridade que temos com o assunto de que trata. Mas em um vestibular, quase sempre há textos de que desconhecemos em parte ou completamente o assunto, e ter em mente como proceder para poder entendê-lo é uma ajuda e tanto.

Vamos exemplificar os passos anteriores com a seguinte redação, feita para o ENEM de 2010, cujo tema foi a questão do trabalho na construção da dignidade humana.

Nova fórmula do trabalho

Na Grécia Antiga, berço de grande parte da cultura ocidental contemporânea, o trabalho era mal visto por classes mais abastadas. De fato, por volta do século V a.C., em uma cidade-estado como Atenas – cuja população apresentava 50% de escravos –, realizar atividades profissionais por necessidade não era considerado um comportamento digno. Mais de dois milênios depois, nas civilizações atuais, um ideal diferente costuma prevalecer: o trabalho como tijolo e cimento na construção da dignidade humana. Entretanto, diante da escassez de empregos e da frequente exploração, percebe-se uma perda na qualidade de vida de muitos, questões cujas soluções dependem de todos os setores da sociedade.


Antes de tudo, é preciso compreender que trabalhar é uma forma de contribuir para a sociedade, por isso deveria ser ao mesmo tempo direito legal e dever moral para todo cidadão consciente. Contudo, no Brasil e no resto do mundo, altas taxas de desemprego e jornadas excessivamente longas têm transformado dignidade em desumanização. Nesse contexto, os poderes públicos devem reduzir impostos, para estimular a geração de empregos, e ampliar as redes de ensino tradicional e técnico, a fim de capacitar a população. Com isso e com a criação de novas leis trabalhistas – e, sobretudo, o cumprimento das já existentes –, suor e lágrimas poderão dar lugar a sorrisos nas chamadas horas úteis do dia.


Nesse contexto, também é preciso mudar essa visão utilitária do tempo, que distancia trabalho e prazer, fazendo o ócio ser enxergado como “inútil”. De fato, trata-se de uma visão míope, com consequências perversas: o abandono da qualidade de vida em nome de cifras mais altas – ou menos baixas – nas contas bancárias e até a opção pelo crime como alternativa mais “fácil” e “rápida” para conseguir dinheiro. Diante de uma equação com tantas variáveis, deve-se estimular a ação de ONGs que denunciem abusos de empresas e levantem a bandeira do emprego digno. Em plano complementar, a mídia pode contribuir com a produção de novelas e filmes que valorizem a importância moral e econômica do trabalho, sensibilizar a população sobre a gravidade dos desrespeitos às leis trabalhistas, conquista frequentemente ignorada tanto por patrões quanto por funcionários.


Torna-se evidente, portanto, a importância do trabalho na construção da dignidade humana, desde que se priorizem os valores humanos à frente da busca amoral por rendimentos financeiros. Para isso, o caminho natural é o investimento em educação, com a ampliação do foco do ensino para além dos conteúdos programáticos. Sem duvida, sem negar a importância de fórmulas matemáticas, faz sentido dar atenção também à formação moral e crítica de crianças e jovens. Assim, as próximas gerações talvez estejam preparadas tanto para as futuras transformações do mercado – que afastarão cada vez mais as noções de emprego e trabalho – quanto para entender o mundo, respeitar a natureza e buscar a qualidade de vida. Eis a equação da ascensão social e humana.

Para entendermos bem essa redação, precisamos seguir os passos mencionados. Nesse caso, temos:

1. (a) O tipo de texto é uma dissertação; (b) o autor fala do tema do trabalho, focando na questão negativa que ele teve desde os tempos antigos, para ilustrar as dificuldades de se alcançar os pontos positivos hoje; (c) Para isso, ele parte de um fato histórico na introdução, que contextualiza essa relação negativa e positiva do trabalho ontem e hoje, para nos parágrafos de desenvolvimento trabalhar, no primeiro, o aspecto positivo e suas dificuldades, e no segundo, o aspecto negativo e a necessidade de superá-los; (d) O autor divide o texto em quatro partes, introduzindo o tema pela lado positivo e negativo, ontem e hoje, depois criando dois parágrafos de desenvolvimento que analisam cada um desses lados, e conclui focando na educação como meio de reverter o quadro negativo e potencializar o positivo.

2. (a) As palavras mais importantes do autor são trabalho, dignidade, exploração, qualidade de vida, lazer e equação. Reparem que as duas primeiras prendem o texto ao tema, as demais acentuam a visão original do autor, e a última marca uma característica de criatividade ao lidar com a sua tese (falaremos mais sobre isso à frente); (b) São as frases marcadas de amarelo; (c) São as marcadas de verde; (d) As partes se articulam com o todo proposto tal como explicamos no ponto 1d.

Temos aqui, rapidamente analisada, a redação do aluno, que nos mostra a forma como ele se preocupou em organizar o seu texto de modo a apresentar sua ideia principal, seu ponto de vista, sua tese, argumentando bem e conseguindo, ao final, concluir com originalidade. É claro que não devemos nos deter nesses termos técnicos agora. Basta para vocês, quando estiverem lendo outras redações, serem capazes de apreender a organização das ideias e o modo de escrever que os alunos utilizaram. Isso será de grande ajuda quando entrarmos na questão da técnica propriamente dita.
Não deixem de praticar com outras redações, e boa sorte!

Nenhum comentário:

Postar um comentário