sábado, 7 de dezembro de 2013

AS DEZ ESTRATÉGIAS PARA A MANIPULAÇÃO E O CONTROLE DA OPINIÃO PÚBLICA



1 – DISTRAÇÃO

Um dos principais componentes do controle da opinião pública é a estratégia da distração fundamentada em duas frentes:
Primeiro, desviar a atenção do público daquilo que é realmente importante oferecendo uma avalanche de informações secundárias e inócuas, que como uma cortina de fumaça esconde os reais focos de incêndio.
Em segundo, distrair o público dos temas significativos e impactantes tanto na área da economia  quanto da ciência  e tecnologia (tais como psicologia, neurobiologia, cibernética, entre outras).
Quando mais distraído estiver o público menos tempo ele terá para aprender sobre a vida e/ou para pensar.

2 – MÉTODO PROBLEMA-REAÇÃO-SOLUÇÃO.
Cria-se um problema ou uma situação de emergência (ou aproveita-se de uma situação já criada) cuja abordagem dada pela mídia visa despertar uma determinada reação da opinião pública.
Tal reação demanda a adoção de medidas imediatas para a solução da crise.
Usualmente tais medidas já estão praticamente prontas e são aplicadas antes que a população se dê conta de que essa sempre fora a meta primordial.
Por exemplo:
  • Valer-se de atentados terroristas para sequestrar da população seus direitos civis. (Depois de 11 de setembro qualquer cidadão em solo norte-americano pode ser “detido para averiguações” fora ou dentro de sua residência, sem direito a advogado, ou defesa, exatamente como o que ocorria no Brasil durante a ditadura militar – basta que se acione a tal lei da Segurança Nacional).
  • Valer-se do crescimento da violência urbana para aprovar leis de desarmamento completo da população civil.
  • Valer-se de crises econômicas para fazer retroceder os avanços conquistados nas leis trabalhistas e promover o desmantelamento dos serviços públicos de assistência aos mais pobres.

3 – GRADAÇÃO 
É uma estratégia de aplicação de medidas impopulares de forma gradativa e quase imperceptível.
Por exemplo, entre 1980 e 1990 foram aplicadas medidas governamentais que desembocaram no perfil de estado mínimo, privatizações dos serviços públicos, precariedade da ação do estado (principalmente na segurança, saúde e educação), flexibilidade das leis trabalhistas, desemprego em massa, achatamento salarial, etc.

4 – SACRIFÍCIO FUTURO
Apresentar com muita antecedência uma medida impopular que será adotada no futuro sempre de forma condicional, porém com contornos nefastos.
Primeiro para dar tempo para que o público se acostume com a ideia e depois aceitá-la com resignação quando o momento de sua aplicação chegar.
É mais fácil aceitar um sacrifício no futuro do que um sacrifício imediato tendo-se em conta que existe sempre uma esperança, mesmo que tênue, de que o sacrifício exigido poderá ser evitado ou que os danos poderão ser minimizados.
Por exemplo:
Antes da aplicação de um aumento de 10% na tarifa de energia elétrica:
Se o clima não mudar teremos aumento de 25% no preço da tarifa de energia.
Na aplicação do aumento da tarifa: 
Devido a um esforço coletivo do governo federal e estadual o aumento acabou se concretizando em apenas 10%.

5 – DISCURSO PARA CRIANÇAS
Emprego de um discurso infantilizado, valendo-se de argumentos, personagens, linguagens, estratégias, etc. como que dirigido a um público formado exclusivamente por crianças ou por pessoas muito ingênuas.
Quando um adulto é tratado de forma afetuosa como se ele ainda fosse criança observa-se uma tendência de uma resposta igualmente infantil.

6 – SENTIMENTALISMO E TEMOR
Apelar para o emocional de forma ou sentimentalista ou atemorizante com intuito de promover um atraso tanto na resposta racional quanto do uso do senso crítico.  Geralmente tal estratégia é aplicada de forma combinada com a número 4 e/ou número 5.
A utilização do registro emocional permite o acesso ao inconsciente e  promove um aumento da suscetibilidade ao enxerto de ideias, desejos, medos e temores, compulsões, etc. e à indução de novos comportamentos.
Exemplo:
Para prevenirmos a ação de terroristas todos os passageiros serão submetidos a uma rigorosa revista antes de embarcar. Colaborem!

7 – VALORIZAR A IGNORÂNCIA E A MEDIOCRIDADE
Manter em alta a popularidade de pessoas medíocres e ignorantes aumentando sua visibilidade na mídia, para que o estúpido, o vulgar e o inculto seja o exemplo a ser seguido principalmente pelos mais jovens.

8- DESPRESTIGIAR A INTELIGÊNCIA
Apresentar o cientista como vilão e o intelectual como pedante ao mesmo tempo em que populariza a caricatura do “nerd” ou “CDF”  como pessoas ineptas do ponto de vista social e um exemplo a não ser seguido pelos mais jovens — estimulando, por um lado, a negação da ciência e, por outro, o desprestígio do uso da racionalidade e do senso crítico.
Geralmente tal realidade se coaduna com a oferta de uma educação de menor qualidade para a população mais pobre – que não se queixa disso por que é moda ser ignorante.

9- INCENTIVAR E INCUTIR A CULPA 
Incutir, incentivar e reforçar a culpa do indivíduo quando do seu fracasso, dividindo assim a sociedade em duas categorias: a de vencedores e a de perdedores.
O “perdedor” (ou loser em inglês) é o indivíduo que não possui habilidades ou competências para alcançar o sucesso que o outro tem.
Daí a grande visibilidade que a mídia oferece a modelos minoritários de beleza e sucesso.
Recordando que apenas alguns poucos seres humanos podem ser enquadrados nesse modelo tão rigoroso que categoriza, discrimina e impõe o que é belo, jovem, célebre e bem sucedido.
O restante da humanidade deve se conformar com sua condição de perdedor e carregar com resignação esse seu status.
Ao invés de rebelar-se contra o sistema econômico, o individuo resigna-se e conforma-se com sua situação pessoal, social e econômica, atribuindo seu “fracasso” à sua completa incompetência. Culpar-se constantemente por isso, atua na formação de um desejado estado depressivo, do qual, origina-se a apatia.

10- MONITORAÇÃO
Por meio do uso de técnicas de pesquisa de opinião, mineração de dados em redes sociais e também dos avanços nas áreas de psicologia e neurobiologia, os donos do poder tem conseguido conhecer melhor o comportamento do indivíduo comum muito mais do que ele mesmo.
A monitoração deste comportamento além de alimentar os dados que aperfeiçoam seu modelo psicossocial, oferecem informações que facilitam o controle e a manipulação da opinião pública.

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Um olho na tv, o outro no vizinho



O velho sonho de alguns poucos poderosos em dominar o restante da humanidade parece hoje estar em vias de profunda realização. Isso porque não só as riquezas se aglomeram em mãos cada vez mais reduzidas, como também os meios de controle e disseminação cultural alcançaram níveis nunca dantes imaginados. A um César romano ou a um Gengis Khan sequer ocorreria pensar nas possibilidades que as câmeras, a mídia e a internet hoje disponibilizam para quem se aprouver desses meios - para o benefício de quem mesmo? Nesse contexto, a cultura e os mecanismos de aculturação se tornam decisivos para os intentos de domínio, ou de simples mudança de comportamento, que no fim das contas não deixa de ser uma forma de domínio.
Ainda ontem, o 'Fantástico' - que de fantástico mesmo só tem o nome - apresentou uma 'reportagem' sobre a maneira como as pessoas nas ruas se comportam frente a uma situação privada, em que a mulher tenta impedir que o marido bêbado assuma a direção do carro do casal. Em dois dias de encenação, apenas três pessoas resolveram intervir na situação, e as imagens e comentários sobre inúmeros acidentes de carro, que permearam a reportagem com o intuito nada mascarado de nos sensibilizar, faziam destas três pessoas agentes de transformação social dignos de uma condecoração de cidadãos exemplares.
Exatamente: não resta dúvidas de que a finalidade da 'reportagem' global fora modificar o comportamento das pessoas, a fim de que intervenham elas mesmas como agentes de transformação social. É imprescindível que, segundo aqueles que engendraram a referida 'mensagem educativa', nosso vizinho não tema em ter de intervir em assuntos privados, e que não lhe dizem respeito, tão-somente porque ele deve pensar a partir de agora que isso lhe diz respeito sim. Se a velha propaganda boca a boca é infalível para o mercado, por que não poderíamos também, cada um de nós, exercer as funções públicas contra o desleixo social? O caso que foi apresentado, com risco de morte, serve como um caso-limite para alguns outros casos 'menos mortais' de nosso cotidiano, e que não deixam de requerer a mesma aplicação cidadã.
Na era da vigilância desmedida, os civis são convidados regularmente a exercer em seu dia a dia o papel de vigilantes, acompanhado da antiga crença de que isso é feito para o bem comum. Mas jamais devemos nos esquecer que o 'bem comum' é um eufemismo, que serve para ocultar a parcela da sociedade que realmente ganha com isso. A difícil questão está em saber quem lucra com essa mudança de comportamento na vida social. A mim, não me parece arriscado dizer quem perde: a massa que, iludida pela tv, se vê promovida de seu anonimato a uns parcos quinze minutos de fama. A fama de se comportar politicamente correta, ou antes, como querem que nos comportemos.

quarta-feira, 10 de julho de 2013

Assim caminha a humanidade...


Quando Sócrates dizia que "virtude é conhecimento" estava enunciando um principio básico da finalidade última da ação humana: para agir corretamente é preciso ter acesso às informações que lhe dizem respeito. A liberdade no bem agir depende dos dados disponíveis para o homem ponderar a decisão mais acertada, e não poucos são os que acreditam que vivemos em uma época de luzes, livres como nunca, porque temos hoje mais acesso a informações. A que informações? Acreditamos mesmo que nos serão dadas todas as informações importantes para nossa decisão acertada? Não parece, antes, que se faz exatamente um acerto prévio do que são consideradas informações importantes, para levar os homens a decidirem o que querem exatamente aqueles que selecionam o que é importante? A atual situação dos meios de informação nos deixa com uma responsabilidade acachapante, muito pouco perceptível para quem nunca se deu ao trabalho de ir procurar as informações mais justas: o homem comum é deixado à sua própria sorte, dividido entre ter de ganhar a vida com trabalho e estudo, e ter ainda de procurar saber se o que está sendo dito por aí é de fato como se diz. Não me espanta que a maior parte da população, atarefada com sua sobrevivência, deixe o trabalho de se informar para os jornais e a televisão, deixando nas mãos de certas criaturas desconhecidas, ocultas por trás das redações, a responsabilidade de decidirem por elas. Imersas em conquistar um lugar ao sol, ou apenas um dinheiro qualquer ao fim do mês, as almas humanas seguem alienadas daquilo mesmo que as torna humanas, quer dizer, o senso de responsabilidade pelas suas decisões. Nesse ponto estão de acordo a doutrina cristã e o pensamento ateu de Sartre, além do sistema jurídico de que dispomos, para dar um exemplo laico. Antes de estar no trabalho e na luta pela sobrevivência, como gostaria o materialismo de Marx, a formação do homem está na sua consciência decisória, a partir da valoração que faz de si e do mundo que o cerca, e sem a qual pode-se chegar a ganhar o mundo inteiro e perder a própria alma. Ainda assim, pensa o homem comum: "não tenho tempo para pensar!" Esse paradoxo flagrante é tão-somente um eco de outro, bem mais profundo, muito próximo da formulação que o pai da filosofia havia dado a partir da frase que trouxemos no início: se "virtude é conhecimento", então "ninguém comete o mal senão por ignorância", e com isso entendemos melhor a miséria de nossos dias, em que as pessoas preferem ser ignorantes, mesmo que isso lhes custe a existência. Afinal, para que se preocupar com o que acontece? Não é muito mais fácil deixar a vida levar, ouvindo o que se diz por aí? Essa coisa de procurar saber e pensar é coisa de desocupado, há uma vida para ganhar lá fora! Não foi o próprio Sócrates quem disse "só sei que nada sei"? Então, deixa a coisa assim mesmo que se melhorar estraga. De minha parte, faço coro com Lulu Santos: "assim caminha a humanidade, com passos de formiga e sem vontade...", com uma única ressalva: as formigas não fazem senão o que lhes é natural.

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Política, pra quê?

Posto aqui um texto que publiquei em meu blog pessoal, em agosto de 2011, e que continua bastante atual. Nele utilizo quase todas as técnicas de conclusão, então vale a pena dar uma lida e tentar identificar quais são. Boa leitura!


O que é a política? A pergunta pode soar um tanto esquisita, já que estamos no Brasil. Mas a esquisitice parece querer dizer exatamente isso - não temos nenhuma familiaridade com a política, senão com o papel vergonhoso que nossos representantes adoram representar no congresso. Por aqui, quando se fala em política se pensa em corrupção, em descaso, em safadeza, como se a imagem da política para nós fosse uma mistura diabólica de malandro da Lapa, playboy engomadinho e uma loira bem devassa. Mas talvez isso seja um sinal, não muito bom, mas um sinal de que as coisas podem ser modificadas. Bastaria que se entendesse que a política não é lá muito distante assim de nós, e que somos de igual modo malandros, playboys, devassos. Reclamar de quem então? A voz do povo é a voz de Deus, dizem as más línguas, mas talvez seja, ao contrário, a voz das profundezas mais obscuras de nossa natureza tupiniquim. Afinal, nossos representantes nos representam, e se estivéssemos assim tão insatisfeitos com a encenação deles não estaríamos inertes diante da TV ou do jornal, vendo a farsa acontecer bancada por nós. A nossa situação está deveras preocupante, mas sempre há um jeitinho, o bom jeitinho brasileiro, para saber lhe dar com a crise. A prefeitura do Rio está falida? O Estado do Rio permanece um esgoto de corrupção? Que nada! O importante é que o inverno está terminando, o verão vem chegando com tudo, e aí poderemos pedir aquela cervejinha, curtir uma praia das centenas de praias cariocas, cobiçando as loiras de plantão, com direito a fio dental e, se tiver algum dinheiro, até um beijinho. Pois é isso que importa, enfim. Nossa natureza não quer saber muito de formalidades. Deixe o terno para aqueles malandros e devassos do planalto. Fiquemos aqui pagando pra ver, literalmente, o circo pegar fogo, sonhando um dia que fosse na nossa cama...

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Começando 2013


A leitura é o primeiro passo para a escrita. Sem ler não se pode escrever, não se aprende a falar, não se consegue pensar. A leitura forma não apenas nossa lida com a escrita, mas também nossa consciência de ser humano. Por isso, não se deixe assustar pela extesão dos textos que publicamos aqui para o seu estudo: já são eles uma forma de você se acostumar com essa prática que fará parte da sua vida daqui pra frente.
Boa saúde e boa sorte!

O que há para ser lido

Por Mauro Malin em 18/10/2011 na edição 664

Affonso Romano de Sant’Anna escreveu no suplemento “Sabático”, do Estado de S.Paulo (“O leitor, onde está o leitor?”, 15/10), que “a leitura é o verdadeiro pré-sal”. Advertência preciosa, mas vai se chocar com um contexto adverso. Há 138 anos, Machado de Assis (Instinto de Nacionalidade) constatava que o Brasil era “um país que apenas entra na primeira mocidade, e esta ainda não nutrida de sólidos estudos”. Talvez por isso ele tenha feito Brás Cubas dirigir “Ao leitor”, no prólogo de suas Memórias Póstumas, o prognóstico:
“O que não admira, nem provavelmente consternará, é se este outro livro não tiver os cem leitores de Stendhal, nem cinquenta, nem vinte e, quando muito, dez.”
A situação dos brasileiros melhorou? Muito. O problema é o ponto muito recuado de onde partiram os avanços “civilizatórios”.
Hoje, discute-se se há no país livros demais, editoras demais. A Record tem um galpão com 2 milhões de exemplares recolhidos de pontos de venda. Affonso Romano de Sant’Anna põe a questão de cabeça para cima: o que há é leitores de menos. A migração da marquetologia para o ramo editorial sofre e sofrerá sempre com a disjuntiva educacional/cultural: qual será no Brasil a correlação entre consumo de produtos como lava-roupas, ou televisores de plasma, ou automóveis usados, de um lado, e livros, de outro?
O “crescimento do consumo” pode causar equívocos. Para o indivíduo “típico” dos grandes grupos humanos, é mais fácil acumular poder de compra do que conhecimento. Sem algum conhecimento não é possível saber o que se pode conhecer nos livros. Mas saber que há uma pechincha nas Casas Bahia, ou um feirão de automóveis no fim de semana, não requer esforço.
Não é fácil ser ignorante
O saudoso matemático e estatístico Wilton Bussab, professor da FGV-SP, deixou gravado um depoimento com esta conclusão magistral: para ser ignorante, uma pessoa precisa estudar muito; senão, é só inocente.
Se as tendências de consumo, mesmo quando medidas com alguma seriedade, não permitem ter certeza do tamanho da produção “ideal” para determinado segmento ou nicho, menos ainda no caso de produtos cuja utilidade e desejabilidade pertencem ao terreno do completo subjetivismo.
Acertar o tamanho de uma edição de livros não é, portanto, tarefa fácil. Na imensa maioria dos casos sobram livros nas livrarias, por sinal tradicionalmente poucas no país. Essa premissa não se aplica aos livros didáticos que têm mercado mais ou menos delimitado, ou mesmo cativo (comprados por governos).
O livro sem papel
Mas tudo isso vai ficar para trás. As edições em papel serão feitas sob encomenda (essa modalidade, que existe há uma boa dezena de anos, ainda não se disseminou). Não haverá mais custos com papel, impressão, distribuição (hoje, nos canais convencionais, mais cara do que a produção do livro ou de revista de pequena tiragem), nem com a manutenção de depósitos próprios ou alugados.
Proporções notáveis do patrimônio natural poderão, em princípio, ser preservadas. Quer dizer, se os fabricantes de papel não criarem novos mercados para seus produtos.
O governo não precisou subsidiar a compra de televisores pela população mais pobre. Bastou controlar a inflação. Depois do Plano Real, a posse de aparelhos de TV se universalizou no país.
Põe a banda que o povo se vira
O mesmo acontecerá com os aparelhos digitais de leitura (“leitores” somos nós, não os aparelhos), já acontece com notebooks e tabuletas. O povo se vira para comprar e isso retira do processo de distribuição custos monumentais. Por isso a banda larga é tão importante. É um investimento muito grande, não funciona na base do “mercado formiguinha”.
É significativo que uma empresa como a Amazon, que deu um banho de logística para vender livros e outros produtos materializados, tenha criado também um aparelho digital de leitura tão sensacional como o Kindle.
Ainda se trata dos primórdios dessa modalidade, o livro dito eletrônico, mas é o suficiente para indicar uma tendência irresistível. Aproveito para fazer um comercial gratuito: Luciano Martins Costa, jornalista de longo curso e escritor, titular do programa de rádio deste Observatório da Imprensa, criou uma editora digital, a Biblos. Já acumula uma experiência interessante.
Daqui a alguns anos, os atuais aparelhos de leitura parecerão canhestros. É o que acontece em todas as revoluções tecnológicas: prometem muito mais do que conseguem entregar no início e acabam resultando em algo muito além do sonhado (lei de Arthur Clarke). Mas dá para imaginar a emoção das pessoas que, por exemplo, ficaram pela primeira vez diante de uma telinha de televisão, mesmo tão pobrezinha, desenxabida?
Livro vs. multitarefa
Agora, vamos ao principal. Por que ler livros, em papel ou em aparelho de leitura, e não em computador ou tabuleta? Porque livro é para ser lido exclusivamente. Em silêncio ou em voz alta (para cegos ou, como fazia Antônio Houaiss na juventude, em Copacabana, para operários estrangeiros ou analfabetos).
Não é para ser lido ouvindo música (recomendação de Chico Buarque, que também evita o inverso: ouvir música fazendo outra coisa ao mesmo tempo), conferindo correio eletrônico, navegando em sites de notícias, com dispositivo de mensagem instantânea piscando ou Skype aberto etc. etc.
É a grande vantagem do livro (pode ser livro de imagens, não importa). A pessoa se concentra. O pensamento pode viajar? Pode. Deve. Mas o ponto de partida é uma criação intelectual orgânica, com ritmo, sintaxe, estética, estilo. Jornal e revista também são assim.
Livro não é para ser lido no computador, em primeiro lugar porque ler alguma coisa muito extensa no computador é uma experiência fisicamente medonha. A tabuleta resolve esse problema. Mas não o da concentração. Pode ser tão dispersiva quanto o computador. E, até o momento, não oferece a confortável opção da tela sem luz própria, como o Kindle.
Os seres humanos não são obrigados a pagar tributo a uma multifuncionalidade geralmente sem sentido. O cérebro é um só, ainda que os sentidos sejam vários. É preciso entender que a indústria cristaliza padrões a cada etapa da evolução tecnológica, mas não necessariamente esses padrões são os únicos possíveis, ou os melhores.
A perfeição é uma meta
O computador pessoal é uma maravilha, pelo universo de possibilidades de trabalho, estudo, diversão, principalmente comunicação que abriu quando passou a ser ligado em rede, mas está muito longe de ser um produto “perfeito” (algo que não existe e não existirá nunca). Tem muita coisa burra. Por dificuldade em alcançar novo patamar, por desinteresse de quem está vendendo muito bem.
No Ocidente se come com garfo e faca (nem todo mundo...). No Oriente, com pauzinhos. Alguém pode dizer que um método seja melhor do que o outro? A escrita “certa” é da esquerda para a direita ou vice-versa? É na horizontal ou na vertical?
Os veículos automotores, que revolucionaram os transportes e as comunicações, provocaram 100 milhões de mortes em seu primeiro século de utilização. A lata de alimentos foi inventada no fim do século 18, mas o abridor portátil de latas, uma simples lâmina com uma alavanca, só na segunda metade do século 19. Latas eram abertas com facas, machados, no faroeste até com tiros.
Assim caminha a inteligência coletiva da humanidade. E o Eclesiastes, sabiamente citado por Machado de Assis como o melhor dos repositórios de sabedoria, garante que “não há nada de novo sob o sol”.